Um ao cubo: o que muda com o segundo filho

segundo filho

Há uma história que contamos em família sobre um conhecido que uma vez disse o seguinte:

Ter dois filhos é muito mais do que um mais um. É um ao cubo.

Matematicamente está bastante errado, mas começo a perceber o que ele queria dizer.

A minha história não é extraordinária. Não tive dois pares de gémeos em dois anos. Também não fiquei sozinha, nem tive oito de uma vez. E sobretudo não houve até agora problemas de saúde, graças a Deus. A maior parte dos casais que conheço tem dois filhos. É bastante banal. Mas a situação é inédita e extraordinária para nós, para mim. E não se fala muito disso.

O que muda quando chega o segundo filho?

É a pergunta que as minhas amigas que estão a pensar ter filhos me fazem com mais frequência.

Várias pessoas me disseram que era natural que estivesse um pouco assoberbada, porque o período logo a seguir à chegada do segundo filho é “o mais complicado”. Muita gente mesmo. Quis acreditar nos que tinham dois filhos, era intuitivo. Dois dá mais trabalho que um. Mas e as pessoas com três filhos que me disseram isto? O que quereriam dizer? Estavam só a ser simpáticas? Por que diriam isso? Como acreditar nelas?

Não sei se é preciso dizer isto, mas às vezes é e por isso aqui vai: o que escrevo de seguida reflecte a minha experiência. Não sou especialista e certamente há tantas histórias como mães.

A gravidez do segundo filho

Começa logo aqui. É uma gravidez mais cansativa, porque já há outro filho. No nosso caso, havia outro bebé, com todas as suas mais que naturais exigências e pedidos de colo. Isto significa que quando as costas doem, já não dá para nos atirarmos para o sofá. Porque provavelmente está lá alguém a pedir para ver o Ruca ou para ir ao parque ou para beber leitinho.

Passámos também parte da segunda gravidez a tentar fazer a outra bebé entender que ia sair um bebé da minha barriga. Que era um mano. Que iam brincar muito e ser muito amigos. Que ela nos ia ajudar a tomar conta do mano. Que bom, tão querida. Etc.

A maior dúvida: será que vou ser capaz de amar este bebé tanto quanto amo o primeiro? Mesmo achando que sim, acreditando que o coração se expande, que o amor não se divide só se multiplica, blá blá blá. Será?

O nascimento do segundo filho

É diferente. Ele é diferente. É tudo parecido mas não é igual. Quem é ele? Será que eu sei fazer isto? Como é que eu vou fazer isto? Etc.

Diz-se que só ligam às mães durante a gravidez e que, mal o bebé nasce, tudo se foca no bebé. Com o segundo filho então, só reparam se a mãe estiver desmaiada na banheira. Há um recém-nascido e há um irmão/irmã mais velho. A mãe que se aguente.

O primeiro bebé parece pesadíssimo a comparar com o recém-nascido. O recém-nascido chora mais do que o outro bebé chorava. Acho eu. Talvez.

Depois do nosso segundo filho nascer, parecia que tratar “só” de um recém nascido era canja. Ponderava se seria mais fácil ou mais difícil tê-los com idades mais espaçadas ou ter tido gémeos.

Consigo ser mãe dos dois? Em que é que me fui meter? Como é que as outras pessoas fazem isto? Como é que os meus pais fizeram? Como é que há pessoas que têm mais de dois filhos?

A relação entre irmãos

Toda a gente pergunta e fala sobre a relação dos dois recém-irmãozinhos, que é sem dúvida importante. Mas connosco, talvez por ter sido pacífica, parece uma gota de água. De todas as situações com que fui lidando, esta tem sido das mais fáceis.

O que fica mais fácil com o segundo filho

Dizem que quando a chucha do primeiro filho cai, se vai ferver água, mas ao segundo filho sopra-se e já está.

Nada contra, mas (a credibilidade de uma frase que começa com “nada contra, mas”) não sou daquelas mães muito meticulosas. Quer dizer, sou dedicada. Leio muito sobre o desenvolvimento e o crescimento saudável das crianças. Mas, salvo em ocasiões especiais, não me preocupo muito se as meias não condizerem com o resto, ou se houver uma nódoa. Nunca esterilizei nada na minha vida.

Nesse aspecto, o segundo filho não mudou grande coisa, porque eu já era descontraída com a primeira.

Mas houve algumas coisas mais fáceis: lidar com cocós ou falta deles, com gases, mamadas, ranhocas, coto umbilical, banhos, etc. Apesar de eles serem diferentes, há várias coisas por que já passámos e que são mais tranquilas.

Também o choro do segundo filho, continuando a ser horrível, acho que sobretudo para a mãe, não é tão aflitivo. A experiência ajuda a perceber que há choros e choros, de cansaço, de fome, de desabafo. Mas o choro do segundo filho pode acordar o primeiro, e por isso temos de ser super rápidos a actuar. Por outro lado, é verdade que, aos poucos, eles também se vão habituando ao barulho de cada um.

O que fica mais difícil com o segundo filho

Primeiro, a óbvia, mas subestimada: dar atenção a dois bebés. Isto tem-se revelado o mais difícil. O pós-parto então, para alguém sensível como eu e com a descarga hormonal, foi francamente duro. Achei que não ia ser capaz.

Também tive muitos medos, sobretudo no início. Medo de não conseguir chegar para as encomendas. De não conseguir protegê-los. De que alguma coisa fosse acontecer.

Outras coisas: senti mais as dores iniciais da amamentação na segunda vez. Não investiguei o assunto em profundidade. Mas li algures que, como o útero dilata mais por já o ter feito, as contracções para voltar ao normal têm de ser mais fortes.

E também há conselhos inúteis

Há o estupidamente inútil “aproveitem para dormir agora”. Como se o sono funcionasse assim. Mas enfim, quaisquer futuros pais estão habituados a ouvir isto.

A verdade é que a maior parte dos conselhos para os recém-pais só funcionam quando é o primeiro filho. Durma quando o bebé dorme. Dê tempo ao bebé para se auto-acalmar, não intervenha logo.

Sleep when your baby sleeps. Everyone knows this classic tip, but I say why stop there? Scream when your baby screams. Take Benadryl when your baby takes Benadryl. And walk around pantless when your baby walks around pantless.

Tina Fey

Qual é a fase mais difícil?

Até que um dia me ocorreu. Talvez seja por isso que toda a gente diz que esta é a fase mais difícil. Porque um segundo filho vem quebrar a relação com o primeiro tal como ela existia. Um filho, qualquer filho, muda tudo, mesmo que tudo pareça manter-se. A primeira filha veio tornar-me Mãe. Ser mãe era ser mãe dela. Até agora. Essa relação, dessa forma, acabou. Por um bom motivo, claro. Não duvido que foi para melhor, porque, como diz a Luísa Sobral, um irmão é o melhor presente. Mas mesmo assim. É um fim. O fim de uma era. (se isto está a parecer dramático e foi escrito alguns meses depois, imagine-se tudo bem temperado com hormonas).

Esse choque emocional é real. Sou toda deles, mas tenho de ser dos dois. Passar de não ter filhos para ter é criar uma nova forma de amar. Mas quando se passa do primeiro para o segundo, temos de lidar com as nossas limitações e medos. Tentar não falhar na tarefa porventura mais importante da nossa vida. Talvez fosse isto que as pessoas com três filhos me queriam dizer.

A parte mais difícil já passou

Por isso sim, acredito que, em certa medida, a parte mais difícil já passou. No sentido em que, quer venha ou não ter mais filhos, e salvo outros problemas mais graves, é o salto do primeiro para o segundo que mais custa.

Agora, só falta toda a parte “difícil” de ser Mãe o resto das vidas deles. Se há coisa que a maternidade já me ensinou, é que não há facilidades. E quando achamos que já dominamos alguma fase, eles mudam.


E tu? Quais foram as maiores dificuldades quando passaste a ser mãe de dois?


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