Tempo de qualidade com os filhos: uma armadilha?

Tempo de qualidade com os filhos

Todas temos vidas ocupadas, agitadas, ricas. Às vezes, estamos ocupadas por tarefas que não nos apetecia fazer, mas que têm de ser feitas. Outras vezes, estamos bem ocupadas, com actividades de que gostamos ou que nos fazem crescer. Mas, por muito tentador que seja pensar que o tempo de qualidade com os filhos é o que importa, já há um tempo que sinto que esse pensamento é uma armadilha.

O mito do tempo de qualidade com os filhos

Eu agora tenho uma teoria. De que o “tempo de qualidade” é uma coisa que nós mães e pais convenientemente dizemos a nós próprios. Porque às vezes (tantas vezes) não é fácil ser mãe. Às vezes, é mais conveniente acreditar na lógica das compensações. Racionalizar que “agora não faço isto, mas depois compenso com aquilo”. Também é assim que às vezes acabamos por compensar com bens materiais outras supostas “falhas”.

Só que contra os bens materiais é mais fácil falar. Têm pior reputação. Aparecem mais vezes como vilão. Basta ver o número de filmes em que uma criança rejeitada pelos pais é a mais rica da escola. Já o tempo de qualidade parece um conceito tão puro, tão difícil de contestar. Quem tem coragem de dizer que tempo de qualidade não é a solução?

Contra mim falo. Seria muito conveniente, dar-me-ia imenso jeito, acreditar que um ou dois slots de altíssima qualidade compensariam uma semana de ausência. Seria o mais fácil. Mas nem sempre o mais fácil é o melhor.

Por que o conceito de “tempo de qualidade com os filhos” falha

Claro que, tudo o resto constante, tempo de qualidade é melhor que tempo de qualidade. Claro que sim. Se a escolha for assim tão binária, sim. Só que a coisa raramente é tão simples como parece.

Há 4 grandes razões pelas quais esta conversa do tempo de qualidade com os filhos não me anda a convencer:

As crianças vivem no momento

As crianças, Deus as abençoe, vivem no momento. Não lhes interessa nada o que poderá vir a acontecer no próximo Sábado. Ou, pelo menos, não lhes interessa assim tanto que as distraia do presente. Ou seja, não são movidas pela lógica das compensações. Só fazem chantagem em último recurso. Preferem sempre um pássaro na mão (por exemplo, a mãe aqui ao meu lado agora) do que dois a voar (um grande passeio no fim-de-semana).

A definição de tempo de qualidade de pais e filhos não coincide

Eu posso achar que um programa cultural e recreativo, bem “enriquecedor”, como ir a um museu ou a um espectáculo, é tempo de qualidade. Os meus filhos, mais vale aceitar, podem preferir ficar um quarto de hora a dizer palavras cómicas em loop. Ou ir comer um gelado. Ou a fingir que são os meus cabeleireiros. Coisas simples. Por vezes, divertem-se mais com uma ida para comprar o pão do que ao Jardim Zoológico. A sua cabeça fresca põe imaginação em cima da realidade que eu vejo e tudo ganha cor. O tempo de qualidade pode e deve ser liderado por eles de vez em quando.

O tempo reservado para “qualidade” pode não coincidir com o mood da família…

Quantas vezes eu ansiei pelo Sábado como dia em que estava totalmente dedicada a eles e um deles ficou doente? Ou cansado? Ou irritadiço? Quem disse que só porque era Sábado tínhamos de estar todos bem dispostos e energéticos? Nem com os adultos se consegue isso, por vezes, quanto mais com crianças? Já para não falar que é uma família inteira que tem de coincidir no mood no mesmo momento da semana, não é fácil.

… E alguns dos momento mais especiais não são programados

Quantas vezes, queridas leitoras, quantas vezes os melhores momentos, os mais mágicos, os que fazem o meu coração e o meu útero e o meu corpo todo palpitarem, ocorreram inesperadamente? Quantas vezes foi a pôr a loiça na máquina, ou limpar um rabo, ou mesmo antes de se adormecer que nos sentimos mais próximos que nunca, que o amor transbordou? E se isso não é qualidade, o que é?

O que podemos fazer

Time is how you spend your love

Nick Laird

Então, o que podemos fazer? Se a qualidade não chega e a quantidade nem sempre existe? Amigas, eu também não sei. Mas acho que não me enganar já é um bom princípio. Assim como é aceitar que não há mães perfeitas e que nem sempre vai dar para tudo. E que para as coisas importantes da vida não há atalhos e que o amor não se negoceia.


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