Como sobreviver à segunda licença de maternidade

segunda licença de maternidade

Este post não é exactamente um guia para sobreviver a uma segunda licença de maternidade. Tenho de ser honesta e é mais um diário, um relato da minha experiência.

Mas o objetivo do post é provar uma coisa: eu sobrevivi. Estou aqui, quase um ano depois a escrever a história. E os bebés estão bem. Sobrevivi apesar de toda a minha falta de preparação, sentimento de culpa e falha permanente e de todas as dúvidas que persistem.

Por isso, ainda que não em forma de guia, aqui vai: uma carta nostálgica escrita por mim, que espero que seja uma mensagem de esperança para quem lê.

Segunda licença de maternidade

Não tenho de fazer quase nada. Basta pôr a tocar o “Sangemil“, o dueto do Miguel Araújo e do Rui Veloso ao vivo. E sou automaticamente transportada para a semana em que o Francisco nasceu.

Foi a música que ouvi pela primeira vez, por acaso, por sugestão do Youtube, na véspera do nascimento do Francisco. Enquanto fazia distraidamente a depilação na casa-de-banho e pensava em como a nossa vida ia novamente mudar para sempre. Uma pessoa percebe e ao mesmo tempo não consegue perceber isto. Pressente-se.

O Francisco nasceu em Março. Foi a minha segunda cesariana. A Madalena tinha 22 meses.

1º mês

BAM BAM SHBANGBAM!

Sai um ser humano para aqueles senhores das olheiras!

Lembro-me de sensações soltas. O Sangemil. Beber um café. Não me conseguir levantar da cama por causa da cirurgia. Sangrar muito (welcome to motherhood). Uma noite em que acordei a tremer e não sabia porquê. Acordar e jurar que estava alguém a chorar e o meu marido achar que eu tinha ficado cheché. Ah, as hormonas no pós-parto merecem o seu próprio post e eu vou estudar o suficiente para o escrever.

Também me lembro de chorar muito, por tudo e por nada. Chorava quando a Madalena era amorosa com o irmão. Chorava quando estávamos todos bem, os bebés a dormir. Chorava quando ouvia o Sangemil, ou músicas da Luísa Sobral ou da Carolina Deslandes. (Se tiver mais algum bebé, vou ouvir Ivete Sangalo e ver que reacção tenho.) Chorava quando não podia pegar nos dois ao mesmo tempo ou quando não me apetecia pegar em nenhum. Chorava quando o botão das calças não apertava.

Eis o que ninguém nos diz sobre a segunda licença de maternidade: precisamos de mais ajuda do que da primeira vez, mas todos assumem que é o contrário. É uma ajuda diferente. Já não precisamos tanto que nos assegurem que está tudo bem ou de companhia. Precisamos mesmo de ajuda: alguém que segure nos nossos filhos para irmos à casa-de-banho.

No primeiro mês alternava momentos em que sentia “isto não é assim tão difícil” com momentos em que só queria fugir de casa.

Eis o que também não nos dizem: o primeiro mês é quando temos mais ajuda. Depois, todos assumem que o pior já passou e voltam às suas vidas e o tempo sobra para nós.

2º mês

O meu mês sozinha com o bebé. A Madalena ia durante o dia para casa dos meus pais e o pai já não tinha dias de licença. Imaginava-nos a fazer longas caminhadas para eu ficar em forma. “Ande a pé com a barriga encolhida” tinha sido o conselho old school da minha ginecologista quando perguntei que exercício podia fazer no pós-parto.

Só que foi um mês de chuvas quase contínuas. E o bebé naquela fase por acaso chorava bastante, queria adormecer ao colo. Enfim, estava armado em recém-nascido.

Por isso, o segundo mês foi passado em casa, a ver a SIC Mulher com e sem som, enquanto mandava vir pizzas ou tentava convencer-me a comer sopa. Via a Ellen e o Project Runaway e quando começava a dar o Passadeira Vermelha percebia que tinha ido longe demais e tentava ler um livro. Mas só no Kindle, porque tinha quase sempre o bebé ao colo.

Tentava guardar energias para quando a Madalena chegasse a casa. Tinha imensas saudades dela e sentia que estava a ser uma má mãe por não estar com ela durante o dia. Só que o bebé não percebia isto e queria mamar e colo à mesma. Dei de mamar muitas horas, com um braço a segurar o bebé e o outro a fazer festinhas na mão da Madalena.

3º mês

Rich people problems, eu sei. Mas a empregada dos meus pais entrou de baixa e tive de ficar com os 2 bebés sozinha. Foi duro. Para mim e para cada um deles, mas habituámo-nos todos, a seu tempo.

Depois de uns dias a contar os minutos até o meu marido entrar em casa, fui encontrando rotinas. Ir comprar o pão passou a ser programa.

Foi duro, física e psicologicamente. Tenho bebés pesados e a diferença de idades era pequena. Quando dizem no pós-parto da cesariana para não levantar pesos pergunto sempre “e os bebés?”. Porque estou convencida que a minha diástase vem daí. Quantas vezes andei a empurrar um carrinho com uma mão e com outra bebé de 2 anos ao colo?

Queria apostar no meu Instagram na altura e não tinha quase nada para publicar. Apareceram fotografias do meu café, da minha caneca, dos desenhos que fazia para a Madalena, de uma casca de kiwi que comi, até de uma bolacha Maria. Valia tudo.

Escrevi posts sobre os meus planos e coisas que ia descobrindo e me alegravam. Também desabafei sobre a mãe do Ruca.

4º mês

Andava pelo bairro, a ouvir as bocas das pessoas com quem me cruzava. Fotografava árvores e flores, enquanto empurrava o carrinho com uma mão e a Madalena procurava formigas. Dica para jovens mães: se puderem, vão para a rua. Tudo melhora 20%-30%, pelo menos.

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Não, não comprei um carrinho de gémeos no OLX. Nem um daqueles apêndices para o filho mais velho ir numa espécie de trotinete agarrado ao primeiro. Mas arrependo-me. Recomendaria.

Tentei ter uma aula de abdominais hipopressivos. Ironicamente, havia lanços de escadas para subir. E depois ainda tive de os manter aos dois distraídos enquanto a mãe respirava. Não funcionou. Prometi a mim própria que iria fazer 5 minutos por dia em casa. Não fiz.

Nesta fase, já tinha uma rotina mais ou menos eficaz. Conseguia pô-los a fazer a sesta ao mesmo tempo e era o meu momento de leitura ou escrita. Aos fins-de-semana descansava porque não tinha de estar sozinha com eles.

5º mês

Férias!

Algarve, sobretudo.

Praia e sestas em conjunto. É tudo tão mais fácil ao pé do mar. Toda a gente dorme melhor, há um cansaço saudável. Comemos gelados, damos mergulhos, respira-se melhor. Até parece que os miúdos se desenvolvem mais. E a família que se junta são colos extra muito úteis. Li livros inteiros. Ganhei uma corzinha, ou seja, deixei de estar acinzentada.

6º mês

Lisboa. A Madalena começou a creche. Mais emoções e hormonas. À excepção do bebé, apanhámos todos uma gastroenterite. Bebi muito chá preto com açúcar. Emagreci. Comprei umas calças 38 na Zara para usar no regresso ao trabalho. Era para ter ido ao IKEA deixar uma série de coisas tratadas mas não cheguei a ir. O bebé começou as sopas e deixou de estar dependente de mim durante 1 refeição.

Voltei ao trabalho.

Como sobreviver à segunda licença de maternidade

Portanto, resumindo, aquilo que aprendi distilado numa pequena lista:

  • Vai para a rua
  • Tenta arranjar pelo menos 10 min por dia em que faças uma coisa que te dê gozo
  • Leva os bebés para todo o lado
  • Se os teus filhos tiverem uma idade próxima, compra um carrinho de gémeos ou equivalente
  • Não te culpes
  • Arranja uma forma de preservar algumas memórias desta fase

E agora?

O bebé tem 11 meses. Qualquer dia já tem anos. Pus a tocar o “Sangemil” enquanto escrevia e ele estava ao meu lado no carrinho. Adormeceu. E estas memórias todas afogaram-me. Interrompi o texto que estava a escrever e despejei isto tudo num fôlego. As memórias são assim. A vida também.


E tu? Tens alguma memória vívida que associes ao teu período de pós-parto?


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