9 preocupações que podia ter dispensado até aos 33 anos

33 anos

Fiz 33 anos há uns tempos. Eu sou daquelas que gosta sempre de fazer anos. É mais um ocasião de reflexão, de balanços, de lições e mais um motivo para festejar.

Desta vez, dei por mim a pensar na quantidade de coisas que já me preocuparam ao longo dos anos, e que provavelmente contribuíram para as minhas rugas aos 33 (e para os 5 ou 6 cabelos brancos que já aqui andam). E algumas dessas coisas, a maior parte dessas coisas, nunca aconteceu.

A minha vida tem sido cheia de terríveis tragédias, a maior parte das quais nunca aconteceu.

Michel de Montaigne (tradução minha)

9 preocupações que podia ter dispensado até aos 33 anos

Estas listas ao contrário, assim pela negativa, têm-me sabido muito bem escrever, é uma espécie de libertação. Recomendo!

Aqui fica uma lista de algumas preocupações a que bem me podia ter poupado nestes 33 anos.

1. Gostar de comédias românticas

Parece parvo, mas isto preocupava-me algures nos anos do liceu. Eu não gostava de admitir o quanto gostava de algumas comédias românticas. Até eram filmes populares, sobretudo para as miúdas, mas não me parecia bem dizer que eram os meus preferidos. Um drama parecia-me uma escolha mais digna. Parecia mais adulto, mais misterioso, preferir O Diário da Nossa Paixão, do que o Clueless. Angustiava-me pensar que não tinha muitos filmes dramáticos de que gostasse.

2. Não ter feito uma viagem ao estrangeiro

Fiz a minha primeira viagem ao estrangeiro, assim a sério, quando tinha 13 anos e sentia-me velhíssima. Parecia que já toda a gente tinha ido a todo o lado e lá estava eu a começar por Londres. Parecia que já estava atrasadíssima. Porquê? O que é que isso provava? Ainda tinha tantos anos pela frente. E nem era uma daquelas coisas só para dizer que fui. Era sobretudo uma sensação de que me estavam a passar ao lado coisas importantes. Uma espécie de FOMO (fear of missing out), embora na altura ainda não lhe déssemos esse nome.

3. Não ter namorado

Preocupei-me por não ter namorado cerca de 60% do tempo em que não tive namorado. Nos outros 40% do tempo, reconhecia que era melhor não ter, que ainda estava em preparação. E que assim, quando me aparecesse a pessoa certa, ia estar mesmo pronta. A pior coisa que me podiam dizer na altura é que me ia “aparecer” um namorado “quando eu menos esperasse”. As coisas acontecem, e aconteceram, quando têm de acontecer. Quando se acredita nisto, eu acho, a vida é muito mais fácil.

4. Ser introvertida

Sim, eu preocupei-me por ser introvertida, sobretudo antes de usar a palavra introvertida, quando achava que era tímida. Preocupei-me porque me pareciam tão mais livres e de bem com a vida as pessoas extrovertidas. Parecia muito mais fácil. Parecia muito mais sexy. Parecia que estava condenada ao fracasso. Que era um ponto de melhoria. Em minha defesa, a escola e 99% das nossas referências culturais e sociais vendem essa ideia e contribuem para a perpetuação do mito. Mas eu agora acho que ser introvertida é um superpoder.

5. Esquecer-me de fazer o TPC de Matemática

O que eu me precupava com isto. Mesmo quando não havia trabalhos de casa de Matemática. Mesmo quando eu sabia que tinha feito o TPC. Até quando já não tinha TPC. Não sei porquê. Era dos pesadelos mais stressantes que tinha. E talvez agora ainda seja vítima do equivalente, do pesadelo ou do stress que é primo deste: e se eu cometer algum erro?

6. Ser uma impostora

Quem nunca sentiu isto, sobretudo em contextos profissionais, que atire a primeira pedra. Conheci uma rapariga que começou a trabalhar um ano antes de mim e lembro-me dela dizer, entre copos de cerveja, que todos os dias estava à espera que alguém do emprego dela dissesse que ela andava a aldrabá-los, que não sabia nada. Nós ríamo-nos, dizíamos que só ela para ter esses pensamentos. Até que chegámos lá. À insegurança. À dúvida. E é engraçado que não é só da idade. É da cabeça. A verdade é que nos últimos doze anos de trabalho ainda ninguém me “desmascarou”. Hmm.

7. A dor de um parto vaginal

Foi este ponto que deu origem à lista toda. É o tipo de coisa que, de vez em quando, preocupa uma mulher que quer ser mãe e ainda não é. Quando vê uma cena particularmente gráfica de um filme ou quando ouve uma daquelas histórias de partos horríveis que circulam sempre. Eu preocupei-me sobre como iria lidar com as dores de um parto. E preocupei-me sobre o que aconteceria se eu não conseguisse fazer força quando os médicos dissessem “push, push”, como nos filmes. Só que eu acabei por ter duas cesarianas até agora e era mais uma preocupação a que me podia ter poupado.

8. Estar a desperdiçar tempo

Ah. Esta é preciosa. Uma das coisas que mais me martirizou ao longo dos anos tem sido esta ideia de que, em determinados momentos, andei a desperdiçar tempo. Podia ter estudado mais, podia ter viajado mais, podia ter lido mais livros ou ido a mais sunsets, sei lá. O que tenho vindo a perceber, de forma lenta mas nítida, é que não é assim que o tempo de mede. Não é assim que a vida se conta. Eu fiz muita coisa que nem me apercebo de ter feito. É um dos grandes mistérios das nossas vidas. Sou uma pessoa diferente da que era há 10 anos e isso foi graças a mim, ao trabalho invisível de cada dia, que por ser tão pequeno me esqueço de valorizar.

9. Não saber o que quero

Durante muito tempo preocupei-me com isto. Se ao menos eu soubesse aquilo que quero, como uma personagem de telenovela que só quer ser uma estrela country. Se ao menos soubesse, podia entregar-me à causa. Fazer tudo ao meu alcance para lá chegar. Mas entretanto descobri duas coisas. Primeira: descobrir o que se quer é um processo, não é um destino. E que, quase sempre, eu até já sei o que quero, simplesmente, cubro-o de outras coisas e depois digo “quem me dera saber”. Quem nunca?


E tu? Tens alguma preocupação que se tenha revelado totalmente infundada? Partilha!


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3 comments

  1. Que saudades tinha dos teus artigos. Como me identifiquei com este artigo, senti-me uma impostora neste novo emprego e mts vezes pensei não ser a pessoa certa para o cargo e na realidade era a falta de confiança.
    O não ter namorado e não ter filhos é daquelas coisas que já nem respondo.
    Não saber o que quero, foi aos 27 anos que descobri a minha vocação e não é por isso que sou menos que os outros.
    Desculpa o tamanho do comentário mas identifiquei-me em todos os pontos,
    Ansiosa pelo próximo artigo 😀

  2. Após leitura muito atenta dos nove itens, muito interessantes , o meu comentário resume-se nesta mensagem
    Francisca.
    “Controle o que pode controlar, viva o que pode viver. o resto, deixe com a sorte e o destino, eles saberão o que fazer”.

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