Como escolher a carreira ideal? Olha para a infância

escolher a carreira ideal

Levanta o braço se todos os Domingos à noite pensas “bah”. Escolher a carreira ideal é algo que, para a maioria de nós, não é nada intuitivo.

Possivelmente, a carreira que escolhemos é um dos aspectos mais centrais para a sensação de uma vida realizada. Isto para dizer que estamos a falar de um pilar da nossa vida. A nossa carreira mexe com temas tão fundamentais como o sentido de propósito, tempo, dinheiro, auto-confiança, reconhecimento.

A maior parte de nós meteu-se por alguma área de estudo, por um conjunto de razões, e foi fazendo escolhas cada vez mais afuniladas até chegar aqui. E algumas de nós dão por si (e outras hão-de dar por si mais tarde) a pensar “como é que vim aqui parar?” Não estamos a falar de mudar de emprego. Estamos mesmo a falar de toda a carreira.

Como escolher a carreira ideal?

Cada vez é mais errado falar em escolher a “carreira ideal”. Porque o que é uma carreira, certo? Já viste o quanto o conceito de carreira se alterou desde que os teus pais entraram no mercado de trabalho?

Mas a verdade é que é fácil ir abafando todas as sensações desagradáveis que surgem e que pesam cá dentro. E depois surgem frustrações que vão ganhando peso e pairam como uma nuvem escura sobre o resto da nossa vida.

O que queres ser quando fores grande?

A pergunta que todos temos tendência de fazer aos miúdos – “O que queres ser quando fores grande?” – é um péssimo começo.

É uma pergunta parva porque a maior parte das crianças não sabe nem pode saber. É uma pergunta que os adultos não fazem a si próprios mas fazem às crianças. Para além disso, também é cada vez mais desactualizada, porque várias de nós têm profissões que são totalmente diferentes do tempo dos nossos pais e que nem existiam no tempo dos nossos avós.

Quando eu era criança e me perguntavam o que queria ser quando fosse grande, sentia sempre uma certa pressão, como se houvesse respostas erradas e certas. E também me lembro de fazer perguntas para as quais nunca tive uma resposta satisfatória. Por exemplo, sempre que perguntava “o que faz ao certo um engenheiro?”, as respostas não me esclareciam.

Toda esta situação é agravada quando os adolescentes têm de tomar decisões sobre áreas de estudo antes dos 15 anos. E a partir daí é sempre a afunilar. Juntando a isso a pressão dos pais, consciente ou inconsciente, muitas vezes prejudicial ainda que bem intencionada, e lá se vai a introspecção. O papel dos pais não é fácil, porque querem que os filhos façam uma escolha segura e “com saída” no melhor cenário ou com “prestígio” no pior.

As pistas da tua infância

A verdade é que a nossa infância traz pistas preciosas que devemos aproveitar se queremos encontrar respostas.

O que é que gostavas de fazer quando eras pequena? Quando tinhas 7 anos? E 10 anos? E 13 anos? Eras daquela que organizava teatros e espectáculos a qualquer oportunidade? Adoravas construir coisas? Desmontavas aparelhos para ver como funcionavam? Falavas pelos cotovelos ou ficavas a um canto a ouvir? Preferias trabalhar sozinha ou em grupo?

Em tempos ouvi a Elizabeth Gilbert contar que os professores estavam sempre a mandá-la calar nas aulas, porque falava demais. E agora ela basicamente vive de ser paga para falar no palco.

Também outro dia ouvi a Marta Gautier falar disso no podcast da Rita Ferro Alvim. Ela contava que em miúda era uma observadora, que preferia ficar a ver as outras crianças brincar e que mesmo assim sentia que estava a participar. E que isso preocupava a mãe, que a incentivava a ir brincar, correr, falar. Mas as ocupações que tem actualmente são todas de observação: psicologia, humor de observação, escrita. Afinal estava tudo certo, comenta ela.

Por que é que é tão difícil perceber qual a carreira ideal?

Não te julgues, porque à excepção de umas quantas iluminadas e sortudas, a maior parte de nós não faz ideia de qual a carreira ideal. É mesmo difícil, porque mexe com a confusão dos nossos desejos e aspirações.

E vamos lá ver uma coisa. Temos todo o direito de procurar algo que nos preencha. Mas é muito exigente essa expectativa de que vamos todas encontrar com facilidade um emprego que seja verdadeiramente gratificante, que nos preencha e satisfaça, que puxe o melhor de nós. Esse optimismo teimoso que a nossa sociedade vende também pode ser perigoso.

Há diversos obstáculos à nossa capacidade de fazer esta descoberta. Por exemplo, os seguintes:

  • A herança familiar, por vezes até inconsciente (os pais admiravam muito uma determinada profissão)
  • A pressão explícita dos pais por um certo caminho
  • Perfeccionismo
  • A escola e todo o sistema educativo rígido e estanque que temos
  • A ideia de que todos temos uma vocação e que está ao nosso alcance descobri-la
  • A noção de que o trabalho é suposto ser um dever (e não prazer)
  • A síndrome do impostor (sobretudo nas mulheres)
  • O peso do custo afundado: já investi 15 anos nisto, não vou agora desperdiçar, etc.

Como escolher a carreira ideal com base nas pistas da tua infância

Por muito que às vezes custe admitir, e apesar dos obstáculos referidos, nós temos dentro de nós respostas para a maior parte das grandes questões. Pode não ser a resposta toda certinha. Mas as pistas estão lá. A maior parte das pessoas que eu vejo falar e que já atingiu essa satisfação com a sua ocupação diz que a nossa infância dá-nos imensas pistas.

Para isso, tens de fazer duas coisas:

1. Ir às profundezas da tua memória e personalidade. Não basta dizer que gostas de coisas bonitas, ou que sempre gostaste de viajar. Pensa mais fundo. Gostavas de arranjar uma mesa muito bonita porquê? Por razões puramente estéticas (essa beleza dava-te prazer)? Porque era uma forma de te expressares? Porque te dava uma sensação de ordem e controlo?

2. Não ser literal. Por exemplo, só porque gostavas muito de fazer recortes e colagens de revistas, não quer dizer que a tua carreira ideal seja necessariamente ir trabalhar para uma revista. Mas pode significar que valorizas o aspecto visual. Não penses em emprego, pensa em tarefa. Até porque já pensaste que podes ter potencial para um emprego que ainda nem sequer existe?

Por isso, tens de ser paciente contigo própria. Perceber o que deverias estar a fazer é difícil e demorado. Não porque sejas burra ou mimada, mas porque tens de tentar interpretar pistas muito subtis e incompletas.


A propósito deste tema, recomendo vivamente o livro A Job to Love, da The School of Life. Para além de explicar isto tudo em maior detalhe e com outras ideias, ainda inclui exercícios simples mas muito direccionados para te ajudar a desbastar caminho.


E é isto.
Agora tu. Tira um papel e uma caneta e começa a tomar nota do que te enchia de alegria em criança. Mesmo que não queiras mudar a tua situação profissional neste momento, é um exercício muito bom para te voltares a ligar um bocadinho à criança que eras.



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