Comédias românticas de Natal e empregos de sonho

comédias românticas de Natal

É um fenómeno mais ou menos recente, este das comédias românticas de Natal. Durante muito tempo, os filmes de Natal eram o Sozinho em Casa e pouco mais. Depois apareceu o Love Actually e uma pessoa revia aquilo todos os anos, porque era o que havia e apetecia ver. Agora há toda uma secção na Netflix. As comédias românticas de Natal são festivas e levezinhas e, como tanta coisa nesta altura do ano, sabem bem.

Comédias românticas de Natal e nós

Estes filmes começam sempre com uma musiquinha natalícia. Às vezes é logo um grande plano de uma vila encantadora com neve a cair. Outras vezes, a queda de neva fica para o clímax. A maior parte deles passa-se em algum sítio pitoresco e cheio de pequeno comécio local bem festivo. Quase todos têm protagonistas adoráveis, embora solteiras, que ficam muito bem de gorro. Há sempre alguém que faz bolachas de Natal ou chocolate quente.

Ninguém devia levar a mal estes filmes assim como ninguém devia levar a mal as músicas de Natal nos centros comerciais: são um consolozinho.

E sim, vamos ser sinceras, aposto que ao fim de 5 minutos já consegues mais ou menos perceber o que vai acontecer aos protagonistas. Quase que basta olhar para o poster. Este género não se caracteriza pelos enredos mais sofisticados. Mas não faz mal, porque ninguém vem ao engano! Tudo, desde o trailer ao título convergem para algo que não é mais do que uma grande bola de algodão doce.

Comédias românticas de Natal: o antes e o agora

Uma coisa que notei é que a carreira é o novo romance. Sim, há sempre algum interesse amoroso pelo meio, mas parece que não é suficiente para a protagonista encontrar o verdadeiro amor. Estas mulheres também querem um emprego que as faça felizes, Deus as abençoe. E muitas vezes as duas coisas estão ligadas. Ou seja, só quando elas percebem o que as vai realizar profissionalmente é que o caminho fica aberto para a relação amorosa.

No meu tempo, nos filmes de Natal, era indiferente a profissão da protagonista:

– Em O Amor Não Tira Férias (The Holiday), sabe-se que a Kate Winslet escreve alguma coisa mas é perfeitamente indiferente para o enredo. No fim do filme, ela arranja um namorado que vive noutro continente e não há um diálogo sobre logística profissional. A Cameron Diaz gosta do que faz, a história não está ali.

– No Love Actually, que eu me lembre, não se sabe, nem interessa muito, o que faz a Keira Knightley ou a Emma Thompson. OK, a Lúcia Moniz é empregada doméstica, mas não se fala de sonhos profissionais frustrados, o mesmo para a assistente do Hugh Grant. As suas ocupações são circunstanciais.

Mas agora não. Vejo um filme de Natal e dou por mim a pensar que profissão teria se me mudasse para uma aldeia. Termino o filme a sonhar com um emprego de sonho e não com um homem de sonho. Queres provas? Sem spoilers, aqui fica uma lista de algumas comédias românticas de Natal que vi nos últimos tempos:

Christmas under wraps: uma médica tem de escolher entre ficar como residente numa pequena aldeia do Alaska onde o seu trabalho e a sua vida fazem sentido e seguir o seu plano original até uma carreira estelar em Boston. Ah e o potencial sogro – Frank Holliday – pode ou não ser o Pai Natal.

A Wish For Christmas: ela é discreta demais no trabalho mas quando lhe roubam uma ideia (natalícia), ela pede um desejo de Natal para ter coragem de se afirmar e o seu destino profissional altera-se para sempre. O interesse amoroso é o chefe que fica abismado com o talento dela.

Christmas Inheritance: ela é uma herdeira destrambelhada que para ser CEO tem de provar ao pai que consegue desenvencilhar-se sozinha e sem dinheiro, numa vila amorosa e cheia de neve. Pelo caminho, descobre-se a si própria e apaixona-se por um local.

Christmas Made To Order: confesso que apesar da cha-la-la-zice estou com vontade de rever este filme. Ela é uma decoradora/organizadora de eventos que sonha criar a sua própria empresa. Ele é um arquitecto que não tem tempo para a família porque trabalha para um grande atelier. Ele contrata-a, pelo caminho apaixonam-se e no fim decidem mudar de empregos.

The Holiday Calendar: ela é uma fotógrafa perdida que anda a desperdiçar os seus talentos a fotografar crianças ao colo do Pai Natal. No final, ela declara-se ao amor da vida dela, mas também é verdade que ele lhe oferece uma galeria onde podem ser parceiros e realizar os sonhos profissionais.

Midnight at the Magnolia: dois apresentadores de rádio e amigos têm de escolher entre criar uma ilusão que “vende” e serem honestos consigo próprios e com o público, enquanto navegam propostas de emprego e um romance.

Christmas With a View: ela abriu um restaurante em Chicago que correu mal. Agora, é manager num resort de Inverno idílico, mas está a tentar partir para novos voos. No final, um chef famoso que se apaixonou por ela, oferece-lhe a oportunidade de emprego da vida dela.

Comédias românticas de Natal e a busca pelo emprego de sonho

Isto interessa-me. Há muito que acho que a minha geração começou a romantizar mais as carreira do que a vida amorosa. Andamos, pelo menos muitas de nós, à espera de um emprego de sonho que nos bata à porta, ou que choque contra nós na fila do Starbucks. Um meet cute no LinkedIn.

Queremos amor, claro. Mas essa é só uma parte da história. Cada vez menos somos uma donzela à espera de um homem que nos diga que nos ama exactamente como somos. Mas cada vez mais somos uma donzela à espera da oportunidade de nos expressarmos e realizarmos naquilo que, ao fim ao cabo, ocupa a maior parte das horas do nosso dia e da nossa vida: o trabalho.

Tal como dantes parecia que encontrar o homem dos nossos sonhos era a chave para o final feliz, agora achamos que o emprego certo pode resolver todos os nossos vazios existenciais. Talvez tenhamos substituído uma coisa pela outra.

Tudo isto para dizer que sim, é Natal, e eu estou a comer chocolates e a ver filmes com adultos a falar com calendários mágicos. Mas estou também à procura de algo como estas personagens de sobretudos encarnados e botas de cano alto. Estamos sempre à procura de respostas.

Seja qual for a tua busca neste momento, desejo que o encontres. Feliz Natal!


E tu? Que comédias românticas de Natal recomendas?


Também te pode interessar:

Livros de Natal: o que sabe bem ler nesta altura do ano

Músicas de Natal: uma playlist por ordem

Também podes gostar

4 comments

  1. Credo, mas de onde é que apareceram esses filmes todos? x) x) Para mim sessões de Natal há-de ser sempre o Home Alone e o José Figueira no Circo de Monte Carlo… para pensar em trabalho já tenho o resto do ano :b

  2. Ahaha, excelente ponto de vista. Os filmes de natal estão sim muito virados para a menina que vai à procura de mudar de vida, porque está farta do emprego enfadonho, para uma aldeia remota e lá encontra um velho namorado de infância por quem se volta a apaixonar. Outra temática que reparei o ano passado é que agora os filmes de natal têm como premissa pessoas que não têm ninguém para apresentar à família na época festiva e como sentem pressão nesse sentido, pedem a um amigo para se disfarçar de namorado (quando não é a um desconhecido qualquer). Deusmalibre de apresentar alguém exatamente nesse dia, ahah!

    1. Ahaha bem verdade, sim sim! Pior dia de sempre para arriscar. E claro tudo muito plausível e natural e seguro, contratar um figurante para a noite de Natal só para não ter de ouvir bocas, que por acaso acaba por se revelar o verdadeiro amor 🙂

Deixe uma resposta

You have to agree to the comment policy.