Amamentação e eu: a love story

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Toda a gente tem uma história de amamentação. De todos os momentos relacionados com o nascimento de um bebé, nada é tão polémico como a amamentação. É o que toda a gente quer saber e só alguns são suficientemente descarados para perguntar.

Conheço futuras mães que conseguem fazer diversas afirmações sobre os filhos: que vão ser vegetarianos, que vão ser benfiquistas, que não vão ter brinquedos. Mas depois são muito cautelosas e dizem, “ainda não sei se vai ser amamentado, porque não quero essa pressão”. As mulheres têm medo.

Actualmente a pressão social é para amamentar durante muito tempo. Até eles rejeitarem, é o que tenho ouvido. Não tenho nada contra nem a favor. Só estou contra a pressão que existe, qualquer pressão, porque é contraproducente.

Tais são as histórias de terror, que nem acreditamos nas boas. Na minha primeira gravidez, uma colega veio contar-me que tinha uma amiga que chorou quando deixou de amamentar o filho. Pareceu-me exagerado. Mas é mais ou menos aí que estou neste momento.

Amamentação: a minha história

A minha história de amamentação é apenas isso: a minha experiência. Ou mais precisamente, duas experiências, aqui condesensadas para não ser tão maçadora.

Cada pessoa faz e deve fazer as suas escolhas e perceber o que funciona melhor para a sua família. E cada um tem os seus limites. O meu é tirar leite com uma bomba. A não ser que um médico me obrigue, não quero. Por isso, quando chega a altura de ir trabalhar e de deixar de ser mãe a tempo inteiro, a era da amamentação precipita-se para o fim.

Princípio

No início, como antes de um encontro amoroso, era só expectativa. Ou melhor, havia a expectativa, mas, quando chegou o momento, só havia o momento.

Tive sorte de ter bebés bastante desenrascados, digamos assim, que sabiam melhor que eu o que era preciso fazer. Isto não significa que não tenha tido as minhas dúvidas. Mas significa que em certos momentos era só abrir a blusa e estar quieta que eles se orientavam. Isso facilita muito. Estou solidária com as mães para quem isto não é tão simples.

Também foi sorte não ter uma série de potenciais problemas que nem sabia que existiam, mas dos quais toda a gente queria falar durante a gravidez. Por exemplo, existe uma coisa chamada mamilos invertidos e vou parar por aqui.

Também já ouvi histórias de terror sobre enfermeiras. A que nos acompanhou ao recobro da primeira vez era arredondada e maternal. Ajudou. Pegou na bebé e pôs-se a explicar. Eu mal conseguia esperar por lhe pegar (à bebé, não à enfermeira) e ouvi-a pouco. A enfermeira beliscou-me, confirmou que tinha o colostro, o leite das primeiras horas. É uma substância densa e concentrada, que não parece que sirva para alimentar ninguém.

Mas a boquinha dela, mais pequena que uma colher de café, encontrou logo o sítio e trincou-me. Olhei para a enfermeira e ela assentiu com a cabeça. Sim, era normal sentir dor. Para o pai perceber, disse que a sensação de quando o bebé “pega” é semelhante a pisar vidros. A mim pareciam-me minúsculos choques-eléctricos. Ou a picada de vários alfinetes em simultâneo. Talvez fosse semelhante a pisar vidros com os mamilos, isso sim.

No princípio vale tudo. Cada contacto é o primeiro, é tudo novo. Ainda se está mais consciente da parte física do que das emoções. Ainda é tudo tentativo. E do corpo. E das hormonas. Será que ele gosta? Será que eu vou gostar?

Eis o que se pensa no início: tenho leite? Está a sair leite? Isto é normal? É suposto doer? Será que o bebé comeu o suficiente? Há pessoas que têm prazer nisto?

Meio

Por piada, e porque eu o obriguei, o meu marido comprou-me um presente do dia da Mãe da nossa filha prestes a nascer. Foi ele que foi escolher. Era um baby grow branco da Chicco, que dizia “I love Mommy”. Tinha o desenho de uma vaca leiteira. E isto é tudo o que precisam de saber sobre amamentação.

Amamentar são muitas horas sentada ou deitada com o bebé. É óptimo e mágico. É cansativo. Às vezes também é frustrante. É uma tarefa que não dá para partilhar. Mas, como em toda a maternidade, os momentos de alegria profunda e as dúvidas angustiantes são intercalados por uma dose gigante de monotonia. Repetição. Sem dramas. Mais do mesmo. Em média, cada mamada demorava meia hora. E eles comem de três em três horas. É uma questão de fazer as contas.

Nos primeiros meses de amamentação, a vida corre ao ritmo das mamadas. Este blog esteve para se chamar “Entre Mamadas”, mas achei que podia ser ser pouco claro. Para aproveitar o tempo da mamada em si, comprei livros para o Kindle, porque consigo lê-lo sem precisar de usar as mãos. Também papei mais horas de televisão do que o meu habitual.

Como em qualquer relação, a familiaridade trouxe o conforto.

E depois já é rotina. Já adormecia a dar de mamar. E depois o bebé vai ao colo do pai ou da tia e tenta mamar e toda a gente se ri. E depois o bebé já é suficientemente crescido para se distrair e ficamos com a maminha ao léu à espera que sua excelência se concentre na refeição. E depois o bebé parece que já afasta a nossa blusa para chegar lá mais depressa. E depois o bebé pousa a mãozinha em cima da nossa maminha enquanto mama. E depois o bebé chora ou o pai é romântico e são jactos que saem dos mamilos.

Fim

Na primeira hora de vida do meu filho, estávamos só os dois deitados na sala de recobro. Eu estava de lado, acabada de coser. Ele também estava de lado. Mamava com os olhos fechados, em mordidelas, como o pequeno mamífero que era. Eu esticava-me na direcção da boca dele. Olhava para as pestanas daquela cara enrugada e concentrava-me em canalizar todo o meu amor para o mamilo. Queria conhecê-lo e que ele me conhecesse. Queria alimentá-lo e fazê-lo sentir que eu estava ali. Tínhamos de nos habituar àquela nova dinâmica.

Eis o que ninguém nos diz sobre a amamentação: é uma espécie de superpoder.

Esta semana, quase seis meses depois, uma cena parecida. Os dois de lado deitados, eu já cicatrizada. Ele mamando, no seu silêncio concentrado, com os olhos fechados. Já não dava mordidelas, mas grandes golos eficientes. O meu mamífero tinha crescido. Parei de ler e fiquei a olhar para as pestanas. Vamos ter de nos habituar à nova dinâmica.

Desmame. Uma palavra usada em tantos contextos e este é o literal. Pensar que nunca mais vai comer de mim, em mim. É uma espécie de alívio e uma espécie de tristeza ao mesmo tempo. Uma espécie de saudade já. Quem diria que ia ser tão bom. Ou então é como com qualquer relação: uma pessoa sente falta das partes boas e esquece-se das más.

Só porque uma história chega ao fim não significa que não seja linda.


E tu? Qual foi a tua experiência de amamentação?


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