Pais apressados, filhos stressados (Mário Cordeiro)

Mário Cordeiro pais apressados filhos stressados

Primeiras impressões

“Pais apressados, filhos stressados” (Desassossego, 2019) parecia o título de um livro mais light, tipo auto-ajuda. Ainda assim, era escrito pelo Mário Cordeiro, que costuma ser interessante.

Trata-se de um livro sobre o uso do tempo. Como não ser escravo dele e não entrar na dinâmica do “despacha-te” que nos afecta a todos. Mas a mensagem é de esperança: há quase sempre algo que podemos fazer para decidir como queremos viver. É um livro de leitura fácil, mas com ideias profundas que remetem para reflexões sérias.

Pais apressados, filhos stressados

O autor preocupa-se com o ritmo frenético em que vivemos na sociedade actual. E o impacto prejudicial que isso tem nas crianças, adultos e famílias. A importância e os benefícios de vivermos de forma mais calma aplicam-se também aos adultos/pais.

Uma parte do livro adopta um registo mais científico. Há incursões sobre a evolução do ser humano e sobre o funcionamento do nosso corpo. Para além disso, o autor usa a voz de “personagens” com argumentos verosímeis e que reconhecemos de imediato. Por exemplo, o pai que sente que se não for ele a refilar com o resto da casa, chegam todos atrasados. Ou a criança que só chora até à escola mas durante o dia está bem. Ou até o cão de família.

Somos tão apressados, por exemplo, que já nem valorizamos o conhecimento e a sabedoria dos mais velhos. O ser humano é das espécies em que o período não fértil (velhice) é mais longo em termos proporcionais. Isso teria de ter alguma finalidade, em termos evolutivos, que estamos a desperdiçar e a subestimar arrogantemente.

Cada criança – e cada família – tem o seu ritmo, pelo que os pais devem proporcionar um sentido de rota, e não uma obrigação de velocidade.

Mário Cordeiro

As grandes questões

aquilo que nos faz humanos é a arte, a criatividade, a calma, a reflexão, a contemplação e o amor

Mário Cordeiro

O autor relembra-nos que corremos o risco de nos tornarmos robots, se não preservarmos a nossa humanidade. E, como a Isabel Stilwell sublinha no prefácio, o que nos torna humanos é incompatível com o “desejo narcísico de sermos tudo e de termos tudo”.

A juntar a esta tendência, o ser humano tem uma “necessidade instintiva” de querer controlar. Isto resulta do facto de sermos frágeis mas inteligentes. Temos uma clara noção da passagem do tempo, o que gera algum conflito.

A ideia que nos querem transmitir de que somos deuses narcísicos, omnipotentes, que “queremos tudo, já” e que o teremos porque “temos direito a tudo!” e tudo isto porque “eu sou eu”, é uma fábula, uma ilusão, uma mentira. Men-ti-ra! Em cada momento da vida escolhe-se.

Mas não nos esqueçamos que somos livres, não temos de ser escravos da forma frenética de viver! Temos mais graus de liberdade para mudar a nossa vida do que pensamos. Ver telejornais “repetidos”, ver séries, ou estar nas redes sociais são escolhas que fazemos em detrimento de outras. Não podemos é ter tudo, como diz o autor.

O tempo é o bem mais escasso e precioso de que dispomos. Por isso, trocar bens por tempo é sair a ganhar. Por exemplo, ter uma casa mais pequena que permita deslocações mais curtas no dia-a-dia. “No nosso quotidiano, ganhar tempo é ganhar o Euromilhões”. Precisamente.

Como fazer com que os nossos filhos adquiram competências, desenvolvam talentos, se expressem “até à última gota de humanidade” e, ao mesmo tempo, desejarmos-lhes uma vida tranquila, calma, em sossego?

Mário Cordeiro

As histórias para adormecer

É uma das práticas mais elogiadas pelo escritor. E um reflexo do que o livro promove. Contar histórias deve ser um processo lento e com pausas. Devemos deixar que crianças modifiquem a história, não exigir a sua submissão neste processo. Os seus contributos reflectem as inquietações que querem ver endereçadas. Para além disso, mais do que o enredo, a história deixa as crianças perceber que os pais estão lá. Essa presença atenta é o mais valioso.

Mário Cordeiro refere-se à história para adormecer como uma “oportunidade que não se pode desperdiçar”. É uma “mistura de ternura, alegria, repouso, encaminhar para o sono e criatividade”.

Um outro objectivo das histórias é a “reposição da lógica ética”. O bem e o mal têm de ser imiscíveis e já agora que o bem vença o mal.

Outras ideias para reflectir

“Pais apressados, filhos stressados” é um livro multi-disciplinar. Seguem outros tópicos interessantes abordados:

  • Reflexão sobre as cidades: “exagera-se o mote de que as cidades são um local muito perigoso”, já que, excluindo alguns riscos, e com o planeamento apropriado, as cidades poderão ser espaços agradáveis para se viver.
  • O ruído é causa de stress, perturbação do sono e sonhos, irritabilidade, hipertensão, sendo os sons artificiais muito piores que os naturais (chuva, ondas do mar).
  • Há complementos para actividades que fazemos que “abrem horizontes nos neurónios”. Por exemplo, o autor ouvia Bach no Youtube enquanto escrevia este livro. Por oposição, tudo o que nos coloque num estado de monotonia e nos transforme em “máquinas acéfalas e repetitivas” é condenável.
  • O valor e os méritos de andar a pé, sobretudo sem rumo nem destino pré-programado. É um hábito que nos permite tomar consciência de nós próprios e de que temos um corpo. É uma desumanização sentir a obrigação de sair de casa só se for para comprar alguma coisa.

Sair sem um euro no bolso será estranho… mas deveria ser normal, quando se sai para passear, para caminhar, no fundo, para poder fazer a actividade humana mais promotora da saúde, mais organizada e global. andar a pé dá “dez a zero” a actividades como “ir ao ginásio duas horas por semana”.

Mário Cordeiro
  • As refeições são um momento privilegiado de diálogo em família, convívio e partilha de sentimentos. Tendo dito isto, também não se deve abusar de refeições em restaurantes que se arrastam, porque desgasta as crianças.

A hora das refeições é um grande momento protector contra os riscos que ameaçam a nossa saúde mental e também a saúde física e nutricional.

Mário Cordeiro

Mini temas aflorados

O autor já pensou muito sobre todos estes temas. Por isso, o livro toca em muito mais ideias sobre as quais muito se poderia dizer.

  • A importância de os pais se envolverem na educação e na própria experiência da escolaridade dos seus filhos.
  • A atitude negativa que alguns pais têm: “que fantástica mãe que eu sou” vs “tenho filhos fantásticos”.
  • O mérito de não sobrecarregar os miúdos com actividades extra-curriculares. É fundamental haver tempo para descansar, dormir, brincar e estar em família aos fins de semana. Ter actividades todos os Sábados às 9h pode ser contraproducente.
  • Não sobre-estimular os miúdos: pode trazer problemas emocionais.
  • Valorizar os pequenos prazeres da vida (numa nota pessoal, é um dos meus principais desafios). O autor exemplifica: passeios de bicicleta, idas ao parque infantil, cinema no sofá.
  • O ser humano realiza-se pela alternância do que o autor chama “polos adrenalínicos” com “polos endorfínicos”. Sem repouso e prazer não há humanidade, nem crescimento.
  • Não devemos ser escravos dos telemóveis. Hoje em dia acha-se que só por nos telefonarem ou mandarem mensagem, temos de responder.

Vamos relaxar, ser felizes e deixar que eles aproveitem a infância de forma equilibrada, sem exigências nem obrigações.

Mário Cordeiro

E ainda isto

Curiosamente, a frase que porventura mais me marcou em todo o livro não é de Mário Cordeiro:

Quem se interessa exclusivamente pela procura do bem-estar mundano, terá sempre pressa, pois dispõe de um tempo limitado para o adquirir e desfrutar.

Alexis de Tocqueville

Resumindo, “Pais apressados, filhos stressados” um livro que dá que pensar, para pais e não pais. Eu gostei.

E a menina?

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