Como proteger um casamento depois dos filhos

casamento depois dos filhos

Digam o que disserem, o casamento depois dos filhos muda. É outra relação, não explicitamente melhor nem pior, mas com uma dinâmica muito diferente.

Já ouviram falar daquela ideia de ter filhos para segurar um casamento? Que jogo perigoso. A verdade é que, por muito amado que seja, um filho complica a relação dos pais de muitas formas. Por isso, se a base não for estável, parece-me que ainda pior.

Este post tenta explorar algumas dicas que podem ser úteis para manter a saúde do casamento depois dos filhos.

Casamento depois dos filhos: o que muda realmente

Ah… Por onde começar? É só basicamente tudo aquilo que muda com a chegada de um bebé (ou vários). Não é para desencorajar ninguém, até porque acredito mesmo que o casamento fica infinitamente mais rico com filhos. Mas, sobretudo no impacto inicial, há muitas mudanças que mexem com a relação do casal.

1. O nosso corpo

Sim, sim. Mesmo para as abençoadas pela lotaria genética, que não tenham estrias, flacidez, pancinha, uns quilos a mais. Mudar, muda. Quem amamenta, nunca mais vai reconhecer as suas maminhas, lamento dizer. Algumas de nós passam a ter de ir mais vezes à casa-de-banho. E se não cair uma pinguinha quando tossimos já é uma vitória.

2. Ritmo e número de horas de sono

Lá está. Mesmo os bebés santos são apenas pequenos humanos. Há-de haver refeições ou sustos ou sonhos ou saudades dos pais a meio da noite. Há uns que só adormecem tardíssimo, outros que acordam de madrugada. Há os que têm ranhoca ou febre e acordam. Há de tudo e em alguns casos há mesmo privação de sono muito séria para os pais. E como diz o outro, o corpo é que paga.

3. Hormonas

As hormonas, hein? Isto dava uma tese. As hormonas têm um papel fortíssimo na gravidez, na amamentação, no pós-parto e nos primeiros anos de vida do bebé. E afectam sobretudo as mães. São as hormonas que explicam forma distinta com que Pai e Mãe encaram o bebé. É por isso que, em média, é mais difícil para as mães do que para os pais afastarem-se dos filhos. Ou deixá-los chorar. Ou voltar ao trabalho. Etc. E isto gera todo o tipo de desequilíbrios adicionais: um quer sair o outro quer ficar, um quer levar o outro quer deixar, etc.

4. Desejo sexual

Este parece-me auto-explicativo, tendo em conta os pontos 1, 2 e 3 acima.

5. Equilíbrio da relação

Há pelo menos mais uma pessoa na relação. E essa novidade também desequilibra e exige dedicação e um esforço de adaptação que até pode ser muito natural, mas não deixa de ser um esforço.

6. Disponibilidade

Simples, mas demolidora. Há menos tempo disponível para tudo o que se fazia antes. Desde o mais interessante (namorar) ao menos (arrumar a cozinha). E por isso, mais uma vez, tudo pode desequilibrar. Há pessoas que com menos tempo disponível deixam de se cuidar, ou de tratar da casa, ou de conversar sobre o dia, ou de ver um filme, ou seja o que for que possa ser importante para o outro.

7. Mais envolvimento do resto da família

Já ouvi muitas histórias de terror sobre sogras ou mesmo mães que se mudam. Ter um filho já é um convite para muita gente se meter, quanto mais o sangue do nosso sangue. Os que nos criaram. Pais, tios, avós, todos têm uma opinião. E embora isso às vezes se traduza em ajuda efectiva, também pode ser uma intrusão à intimidade do casal.

A importância de cuidar do casamento quando se tem filhos

O casamento é vosso filho mais velho.

Frase dita no nosso Curso de Preparação para o Matrimónio (CPM)

Esta é uma das minhas frases preferidas sobre a gestão familiar depois dos bebés. A verdade é que é muito fácil os filhos passarem a ser o centro da vida dos pais. Não só fácil, como natural. E algo que até pode parecer nobre, generoso, verdadeiramente paternal.

A verdade é que o melhor para os filhos e para toda a família é o casamento estar forte e saudável. Foi do casal que nasceram os filhos. É essa a origem. O primeiro amor.

Nota: ao longo do post estou a usar a expressão casamento, porque é o meu caso, mas isto é válido para novos pais mesmo que não estejam casados, como é óbvio.

Como não destruir o casamento depois dos filhos

Por tudo isto, é fácil perceber que não basta esperar que tudo corra bem e que caiam pózinhos mágicos que resolvam tudo. Há que trabalhar na relação, gente.

Seguem algumas dicas para tentar lidar com os desafios no casamento depois dos filhos.

Ajustar as expectativas

Esta é para aplicar antes, durante e depois. Não vale a pena repetir à força que nada vai mudar. Seria muito mau sinal. E para além disso, sinceramente, é impossível.

Creio que ajuda essa preparação mental de nos irmos habituando à ideia de que as rotinas vão mudar. De que vai ser bom, mas cansativo. De que vai ser mais complexo, certamente.

Conversar sobre tudo

Há certas noites, ou certas manhãs seguintes, em que tudo o que não apetece é olhar para o outro e perguntar “O que é que sentes?”.

Mas ajuda sempre se o casal conversar sobre tudo. O que gostava, do que sente mais falta, o que assusta cada um, etc. Muitas vezes são coisas diferentes.

Deixar o outro ter momentos sozinho

Quando se está enterrado em fraldas e leite até aos cotovelos, pode não parecer óbvio. Mas é capaz de ser mais saudável de vez em quando um ficar sozinho com o(s) filho(s) e o outro ir arejar. Ir ter com amigos, ou ao ginásio ou dormir. Nem que seja só uma hora por semana. E depois trocam.

Não ser um mártir

Aquela tendenciazinha, tão humana, que temos para a vitimização. Porque se formos a vítima temos um crédito. Estamos por cima.

Incorporar o bebé nas rotinas da família

Isto varia muito de família para família. E até me faz alguma confusão quando ouço alguém dizer que a vida não mudou nada com o nascimento do bebé. Mas nem oito nem oitenta.

Tentar ter momentos a dois

Digo tentar porque nem toda a gente pode, ou está dependente de muitas condicionantes. Mas qualquer coisa só a dois ajuda. Nem que seja fazer em conjunto uma coisa que noutros tempo teria contado como frete. Por exemplo, ir ao supermercado. Se possível, sair de casa só os dois, ficando pelo menos teoricamente tranquilos com quem deixaram os miúdos, uma vez por mês.

Manter gestos de carinho

Try a little tenderness, como a canção. Não tem de ser o marmelanço de outras Primaveras. Basta uma festinha, um pequeno beijinho. Às vezes basta dizer “não te levantes, que eu vou lá”. Ou não comer o último bombom. Tudo conta.

Perceber que a vida tem muitas fases diferentes

A nossa vida vai sendo feita de ciclos. Se calhar, a chegada dos filhos deixa-nos estoirados e a pensar que nunca vamos ter tempo para voltar a namorar ou viajar ou para outros projectos pessoais. Mas não é verdade. Qualquer dia vamos sentir o contrário, que as crianças cresceram num instante, onde estão os meus bebés, agora mal te vejo. Parece conversa de velhos, mas é a verdade.

Por isso, aproveitemos. Mas que isto não destrua o casamento. Temos de ter alguém com quem querer fazer as tais viagens daqui a uns tempos.

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